21/03/2017

Jukebox Encantada #6


TITÃS
JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS
(1987)

A infelicidade de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas é estar espremido entre duas obras-primas incontestáveis: Cabeça Dinossauro (1986) e Õ Blésq Blom (1989), referências que pulam facilmente, quase como reflexo, da boca de quem fala de grandes álbuns do rock brasileiro. Ainda assim, penso nele como sendo um amadurecimento da fúria punk do álbum anterior e um "estágio" fundamental (mais feliz, até) para o neotropicalista disco que o sucederia.

Em 1987, o Brasil convulsionava sob a pressão por eleições diretas (que viriam dois anos depois) e uma inflação galopante, mascarada por sucessivos planos "milagrosos". Existe uma regra não-escrita, segundo a qual, quando tudo vai mal é que a Arte vai bem. Nada mais natural, então, que o redivivo rock brasileiro estivesse inspiradíssimo, com as bandas parindo belos trabalhos (são de 1987, por exemplo, Que País É Este, da Legião Urbana, e A Revolta dos Dândis, dos Engenheiros do Hawaii).

Enquanto quase todo artista da época tinha uma balada pra chamar de sua, os Titãs - uma enorme e feliz "nação" de oito pessoas - tinham hinos rápidos e furiosos, para serem berrados a plenos pulmões. O amor estava no cardápio, mas não de forma a provocar isqueiros acesos nas plateias dos ginásios. Logo na abertura, Arnaldo Antunes, sobre apenas bateria e efeitos eletrônicos, literalmente, berrava:

Quem tem medo quer amor
Quem tem fome quer amor
Quem tem frio quer amor
Quem tem pinto, saco, boca, bunda, cu, buceta, quer amor
Ele quer, ela quer
Todo mundo quer amor de verdade

Por trás da aparente disposição de chocar (da qual os Titãs não se esquivavam), havia discurso afiado e fina ironia. O maior exemplo vinha a seguir: "Comida", a faixa cuja letra jogou os Titãs em praticamente todos os vestibulares dos anos seguintes. Provocativa ("você tem fome de quê?"), questionava o vazio da existência dedicada apenas ao trabalho. Arnaldo Antunes tornou-se a régua por qual todo poeta concretista metido a músico passou a ser medido. 

Refinamento poético, porém, era uma exceção. De modo geral, Jesus é bastante desiludido e direto, um autêntico álbum de protesto. Quanto ao som, as brincadeiras eletrônicas iniciadas em "O Quê?" (do Cabeça Dinossauro) foram expandidas, com resultados bastante felizes, especialmente em "Comida" e "Diversão" - a primeira, um funk pensante e contagiante; a segunda, um monumento do nosso rock, com programação rítmica exemplar, letra angustiada sublime e performance vocal espetacular de Paulo Miklos.

Em minhas audições, só sinto a temperatura baixar um pouco em "O Inimigo" e na fúnebre "Infelizmente". Embora pueris, "Mentiras" e "Armas pra Lutar" transbordam de energia punk. "Desordem" é um rockão sólido que pinta um retrato caótico do país naquele ano, mas que não soaria tão anacrônico, hoje em dia. Da mesma forma, "Nome Aos Bois" poderia ganhar novos nomes em sua lista de monstros e escroques, a cada ano.

TITÃS: Charles Gavin, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Sergio Britto, 
Nando Reis, Branco Mello, Arnaldo Antunes e Paulo Miklos.

Embora fossem, essencialmente, uma banda pop, os Titãs tocavam e portavam-se como um dínamo de rock 'n' roll, com peso, discurso e atitude correspondentes. Tony Bellotto e Marcelo Fromer (morto em 2001) - respectivamente, solo e base - eram uma dupla formidável de guitarristas; Nando Reis estalava o baixo com peso funk e impunha dramaticidade à voz pequena; Charles Gavin descia a mão na bateria com precisão cirúrgica. Os demais vocalistas (Arnaldo, Paulo, Branco Mello e Sergio Britto, também tecladista), demonstravam versatilidade individual e conjunta. O crescendo criativo da banda só podia desaguar em uma obra-prima do calibre de Õ Blésq Blom, um disco que reflete grandes talentos, ambições e mentes abertas, mas, de modo geral, ainda percebo mais tesão de tocar rock 'n' roll neste disco aqui.

Enquanto escrevo, me vem a lembrança de que foi este meu primeiro disco da banda. A produção cristalina do onipresente Liminha (que também toca em algumas faixas) não o impediu de ser um cartão de visitas barulhento e contundente, uma porrada nos ouvidos e neurônios. Se fosse cantado em inglês, teria sido uma pequena revolução neopunk. Para mim, o ápice da energia dos Titãs como banda; o exato momento em que fincam pé no Olimpo e chutam as bundas de acomodados deuses.

Titãs - Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas
Lançamento: 23 de Novembro de 1987.
Produção: Liminha.

01 - "Todo Mundo Quer Amor"
02 - "Comida"
03 - "O Inimigo"
04 - "Corações e Mentes"
05 - "Diversão"
06 - "Infelizmente"
07 - "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas"
08 - "Mentiras"
09 - "Desordem"
10 - "Lugar Nenhum"
11 - "Armas pra Lutar"
12 - "Nome aos Bois"
13 - "Violência" (faixa bônus da edição em CD)

17/03/2017

Animal ferido


Já faz quase 20 anos que X-Men (Bryan Singer, 2000) fez os estúdios acordarem, mais uma vez, para o potencial lucrativo das adaptações de HQs - e Hugh Jackman já estava lá, a única unanimidade naquele e nos filmes que vieram em seguida. O ator certo, no papel certo, na hora certa.

A gente se acostumou a ver Hugh Jackman como Wolverine. Não importa que, entre os intervalos da franquia mutante, ele tenha feito diversos filmes de diversos estilos - ora, diabos, não importa nem mesmo que ele tenha sido indicado ao Oscar! Bom mesmo era quando ele ejetava as garras e fatiava um sujeito (ou vários!).

Acontece que Jackman, previsivelmente, se cansou de ser o carcaju. Desde o início da produção, Logan foi anunciado como sua despedida do personagem - e, felizmente, é uma saída de cena bastante honrosa: simples assim, Logan rivaliza com os melhores momentos das aventuras mutantes (em minha opinião, X-Men 2 e X-Men: Primeira Classe), se é que não os supera.

A evidente inspiração em O Velho Logan, minissérie de Mark Millar e Steve McNiven, que apresentou ao mundo um Wolverine idoso, está limitada à aparência do personagem e à ambientação num futuro em que uma grande tragédia forçou Logan a guardar as garras. Envelhecido e visivelmente doente, ele opta por "sumir" e evitar problemas.

No filme, Logan trabalha como motorista de limousine de aluguel. Ao fim de cada dia, retorna para uma fazenda abandonada, onde vive recluso, contando apenas com a companhia do mutante rastreador Caliban (Stephen Merchant) e de um combalido Charles Xavier (Patrick Stewart), delirante e sob medicações que ajudam a manter seu poder sob controle.



Quando recebe uma proposta para levar uma garota até Dakota do Norte, perto da fronteira com o Canadá, Logan inicialmente reluta, mas o envolvimento do ciborgue Donald Pierce e seus Carniceiros - mais o fato de que a garota, Laura (Dafne Keen), guarda espantosas semelhanças com o próprio Logan - o faz embarcar numa jornada de perigo e morte - mas, também, de emoção e descobertas.

O que faz de Logan um filme tão bom é o óbvio ululante: existe uma boa história sendo bem contada. Não é um amontoado de cenas "massavéio" pra impressionar adolescentes (e que se diga, como em Deadpool, a opção pela censura R fez toda a diferença), nem existe obrigação de interromper os dramas em curso pra inserir piadas (o humor existe, mas é espontâneo e discreto). 

Logan serve ainda para Patrick Stewart justificar seu título de Sir. Ator shakespeareano, ele deixa para trás a pose impassível de "velho sábio e sereno" e, sob a batuta de um diretor de atores bem melhor do que Bryan Singer, entrega uma performance emotiva e rica em nuances. James Mangold extrai de Hugh Jackman, também, seu melhor trabalho na série (e isso tem a ver com qualidade, não quantidade - quem já viu, entendeu). Coroando o afiado trio de protagonistas, a menina Dafne Keen é um verdadeiro achado, alternando selvageria e doçura igualmente generosas.


Para não dizer que tudo dá tão certo assim, o calcanhar-de-Aquiles dos filmes da Marvel é exposto mais uma vez: os vilões de Logan, embora não comprometam, não chegam a fazer a gente temer ou espumar de ódio deles. Boyd Holbrook como Donald Pierce é pouco mais que um leão-de-chácara com braço mecânico, e Richard E. Grant não causa grande impacto como Zander Rice. O caráter não-espetacular dos caras maus pode ter sido uma opção consciente, visto que o filme tem todo um jeitão pé-no-chão, mas, mesmo assim, vai pro caderninho de vilões meia-boca que comprometem os filmes da Marvel, de vez em sempre.

O mesmo trunfo que, quase duas décadas atrás, colocava X-Men acima de tudo que havíamos visto até então, é o que, hoje, consagra Logan como um filme redentor: é preciso haver dramas com os quais o espectador se importe, e é preciso que os personagens sejam transformados pela dor que enfrentam. Logan tem como protagonista um homem doente, atravessando o país com um sequelado que já foi a mente mais poderosa do planeta e seu pai de consideração, pra levar uma garota pouco sociável e que não teve infância a um encontro com supostos amigos, num lugar que talvez nem exista. Redenção, abnegação, utopia. Estas coisas tocam as pessoas nos músculos certos do coração.

Transformada em evento, a despedida de Hugh Jackman do papel de Wolverine merece o status. Logan é o canto-de-cisne mais bonito no subgênero de super-heróis. Ele soprou vida real em um personagem que só existia em papel. É o tipo de proeza que a gente costuma atribuir a seres de outra grandeza.

03/03/2017

Teste dos 20 Anos - 1997


Em 1997, a música vivia tempos estranhos.

Quem mandava lá fora era o techno (de sonoridade mais suja e pesada que o technopop do começo dos anos 80, favor não confundir), a ponto de a maior banda do planeta, o U2, fazer um disco com alto grau de influência da tal coisa. Outra moda clubber, o drum 'n' bass, nascia para o grande mercado (morrendo já no ano seguinte, sem deixar saudade). O Metallica lançou mais um disco odiado (ReLoad) e o Oasis chegava ao megaestrelato com um disco chato, pontuado por bons singles (Be Here Now). Na black music, foi ano em que o mundo conheceu Beyoncé, via Destiny's Child.

No Brasil, Chico Science morreu, forçando a Nação Zumbi a achar um caminho sem ele - e acharam! Os últimos registros de estúdio da Legião Urbana chegavam ao público, um ano após a morte de Renato Russo. Nas rádios, reinavam o axé e o pagode romântico, mas o rock achava espaço, com a  alta popularidade do primeiro disco do Charlie Brown Jr.

Só esclarecendo, mais uma vez: tinha discos mais importantes pra comentar, tipo o Urban Hymns, do The Verve? Tinha, mas eu escolhi discos que eu ouvi por inteiro, no momento certo (ou seja, no lançamento, ou pouco depois disso). Conheço os discos acima, mas não escutei alguns deles por inteiro - até hoje! - ou só os ouvi muito tempo depois. Se seu disco favorito não está na lista, você pode deixar sua opinião (antiga e atual) sobre ele nos comentários.



THE BRAND NEW HEAVIES
SHELTER


Foi amor à primeira vista?
Eu já lia sobre The Brand New Heavies havia uns quatro anos, sem nunca ter chance de ouvi-los. Um elogio da Showbizz e uma promoção do saudoso Musiclub (lembra?) me levaram a comprar este disco. Logo tornou-se um dos meus discos favoritos, com sua mistura precisa e elegante de funk e soul, um oceano de melodia, num ano em que a estranheza dos anos 90 atingia uma espécie de ápice. Pop e chique até dizer chega!

Ainda rola gostoso?
Sim, sim! É o unico álbum da banda com vocais de Siedah Garrett e ela vai bem tanto em baladas açucaradas ("Feels Like Right") e magoadas ("Stay Gone", um passa-fora daqueles!), quanto em momentos funky ("I Like It", "You Are the Universe"). A banda tem outro vocalista fabuloso, o baterista Jan Kincaid, que canta a minha favorita, "After Forever". Tudo é de tão alto nível que a boa cover de "You've Got a Friend" (Carole King) acaba soando dispensável.


FLEETWOOD MAC
THE DANCE


Foi amor à primeira vista?
Eu só conheci este álbum em 1999, quando um amigo em Itumbiara (GO) o apresentou. Tratava-se do MTV Unplugged do Fleetwood Mac - o que era bastante estranho, sendo o disco tão elétrico. Rock folk setentista dos bons, com Lindsey Buckingham debulhando na guitarra e Stevie Nicks carregando lindamente no drama de "Rhiannon" e "Landslide". O grupo esteve oficialmente desfeito por 10 anos, mas os membros seguiam colaborando entre si, o que explica a sintonia ouvida aqui.

Ainda rola gostoso?
A versão de "The Chain" (a música dos trailers de Guardiões da Galáxia Vol. 2) contida neste álbum é minha favorita. Ainda é muito agradável escutá-lo, porque ele é cheio de músicas pop de primeira, como "Dreams" e "Say You Love Me" e as então inéditas "My Little Demon" e "Bleed to Love Her". Com o Fleetwood Mac saindo em turnê mundial este ano, não custa sonhar com uma passagem pelo Brasil.


GABRIEL O PENSADOR
QUEBRA-CABEÇA


Foi amor à primeira vista?
Ah, foi, sim! Dois anos antes, Gabriel tinha cometido um disco fraco (Ainda É Só o Começo), autorreferente e mal-humorado em demasia. Voltando sob a produção do DJ Memê (um mestre dos remixes e samples), Gabriel mostrou que dava pra fazer música alegre falando de coisa séria ("Dança do Desempregado", "Pátria que Me Pariu", "Cachimbo da Paz") ou nem tão séria assim ("2345meia78", "Eu e a Tábua", "Festa da Música"). Tocou e vendeu pra caramba, dando moral pra Gabriel abrir um show do U2 em BH, no ano seguinte.

Ainda rola gostoso?
Encarado como música pop, sim. Memê sampleou Chic, The Floaters, Hall & Oates e Jocelyn Brown (entre outros), criando bases matadoras pra Gabriel deitar seu rap, cujos temas sociais permanecem relevantes (violência, legalização da maconha, desemprego, abandono infantil), mas cujo compasso ficou datado e, agora, me provoca certa impaciência pelo uso exagerado de vozes coadjuvantes "engraçadinhas".


MORRISSEY
MALADJUSTED


Foi amor à primeira vista?
Depois do estranho Southpaw Grammar (1995), com algumas faixas quilométricas onde pouco se ouvia a voz de Morrissey, foi bom tê-lo de volta a um formato mais ortodoxo, mas este foi um disco que custou a me ganhar. Exceto por "Wide to Receive" (emocionante desde a primeira audição do primeiro acorde), tudo veio se acomodando aos poucos em meus ouvidos.

Ainda rola gostoso?
Não sei bem. Este é um disco que ouço pouco, embora goste muito de músicas como "Alma Matters", "Satan Rejected My Soul", "Roy's Keen" e "Papa Jack". Confesso que ando meio cansado de Morrissey, ultimamente, como já me cansaram antes outros artistas que amo. É só uma fase, eu sei, mas é este o momento em que escrevo. Como vários outros de Moz, este disco tem uma versão remasterizada, com faixas extras e com capa diferente.


RADIOHEAD
OK COMPUTER


Foi amor à primeira vista?
The Bends (1995), o anterior, tinha sido um discaço. Natural esperar coisa boa do Radiohead, mas a crítica exagerou tanto no endeusamento a este disco, que eu peguei um bode do cão (sic) antes de ouvir qualquer faixa. O Radiohead tinha ficado esquisito, mas de um jeito que ainda era bom. Minhas favoritas eram as mesmas de hoje: "Exit Music (For a Film)", "Let Down" e "No Surprises".

Ainda rola gostoso?
Hoje, para mim, Radiohead virou sinônimo de chatice. Claro, tem músicas formidáveis aqui e ali, mas tem muita, muita, muita esquisitice pela esquisitice. OK Computer, porém, segue sendo um grande disco, retrato preciso de um momento da humanidade, e minhas três favoritas são, afinal, atemporais.


SOUL II SOUL
TIME FOR CHANGE


Foi amor à primeira vista?
Corroborando o título ("tempo de mudança"), este foi um disco bastante diferente do Soul II Soul. Em lugar de house music, o disco tinha funk e pequenas concessões à chatice do drum 'n' bass (quase obrigatório entre 1997 e 1998). Em lugar de Caron Wheeler e outras divas, vocalistas masculinos em quase todas as faixas, exceto pela linda "Thank You". Desde a primeira audição, "Pleasure Dome", "Get Away" e "I Feel Love" grudaram bonito.

Ainda rola gostoso?
Engraçado como eu nunca considerei o positivismo de Jazzie B como sendo autoajuda - e é. Ele tem um modo de dizer as coisas que me agrada desde o primeiro álbum. Este aqui até que envelheceu bem e creio que deveria ter feito mais sucesso. "I Feel Love" (com vocais masculino e feminino) é mortífera numa pista de dança e as baladas continuam muito agradáveis. Infelizmente, Time for Change foi o canto-de-cisne do Soul II Soul.


TIMBALADA
MÃE DE SAMBA


Foi amor à primeira vista?
A Timbalada, naqueles históricos cinco primeiros anos de atividade, era a maior beneficiária da criatividade e talento de Carlinhos Brown. Mesmo sendo um disco mais "difícil" do que Mineral (1996), Mãe de Samba emplacou alguns hits, apesar da pegada mais roots, com mais peso percussivo e metais cristalinos de tão límpidos.

Ainda rola gostoso?
Não todo de uma vez, mas dá pra programar as faixas em duas metades, pra ouvir em momentos distintos. Ainda é arrepiante a participação de Alcione em "O Erro e o Concerto", e o pula-pula desenfreado de faixas como "Ai", "Bum" e "A Latinha" é um desafio pra minha energia de quarentão. Para irritar vizinhos intolerantes, nada melhor que a primeira ("Na Beira do Mar") e a última ("Mãe Oyá"), faixas que ainda ouriçam o que quer que seja africano dentro de mim.


TITÃS
ACÚSTICO MTV


Foi amor à primeira vista?
Depois do peso de Titanomaquia (1993), os Titãs haviam voltado ao pop em Domingo (1995) e parecia justo querer coroar isso com um disco acústico, um dos quatro cavaleiros do apocalipse (sendo os outros três: discos ao vivo, coletâneas vagabundas e techno). Era preciso muita má-vontade pra não se derreter com os arranjos modificados de músicas como "Flores", "Pra Dizer Adeus" e "Comida". Vendeu e tocou um absurdo!

Ainda rola gostoso?
Sim, pois estamos falando de clássicos perenes do rock nacional e de convidados sensacionais (Jimmy Cliff, Marisa Monte, Fito Paez), ora essa. As então inéditas ("Os Cegos do Castelo", "A Melhor Forma" e "Nem 5 Minutos Guardados") já davam mostra de que os Titãs seriam suavizados - naturalmente, devido à idade que chegava; e mercadologicamente, tornando-se irritantes ícones românticos e de autoajuda.


U2
POP


Foi amor à primeira vista?
Ora, na década de 90, após os irretocáveis Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), o U2 podia qualquer coisa e eu aplaudiria até peidos! Mas, em Pop, a mão techno pesou. Barulhinhos e deboche demais, em canções não tão inspiradas assim, ainda que dignas, em sua maioria. Apesar disso, foi muito ouvido e repetido, principalmente em seus momentos mais "padrão U2", como "Staring at the Sun", "If God Will Send His Angels" e o monumento western "Wake Up Dead Man".

Ainda rola gostoso?
"MoFo" era puro techno, e techno é uma coisa morta e nada saudosa. Passo por cima dela e de "Miami" sem dor na consciência.  Por outro lado, a cada ano que passa, gosto mais do riff de "Discothèque", a carta de intenções da época. Enquanto escrevo, me pego pensando em como seria se Johnny Cash tivesse encerrado este disco, também, cantando "Wake Up Dead Man". Que mundo lindo teríamos!


WYCLEF JEAN
THE CARNIVAL


Foi amor à primeira vista?
O estrelato conjunto dos Fugees durou pouco - dois discos. Em carreira solo, Wyclef Jean largou na frente de Lauryn Hill e Pras, poucos meses após o fim do grupo. Longo (24 faixas, entre canções e vinhetas) e cheio de participações memoráveis (Celia Cruz, The Neville Brothers, Rita Marley), o álbum mostrava uma diversidade musical e bom humor contagiantes, com pausas para momentos românticos e reflexivos. Caiu em meu gosto como poucos do gênero.

Ainda rola gostoso?
Sim, embora seja inegável (e até inevitável) que a maioria das batidas estejam datadas. Ainda dá pra rir com o "julgamento" de Wyclef entre as faixas. Os samples e convidados ainda agradam bastante, especialmente The Neville Brothers, em "Mona Lisa" (que vocais, amigos!), e Lauryn Hill, que brilha e emociona em "Sang Fézi", flutuando graciosamente sobre a melodia de "House of the Rising Sun" e roubando o show do colega por breves e lindos segundos.

10/01/2017

Hoje é um novo dia...


Mais um ano que termina e outro que começa, com aquelas velhas perguntas, dando voltas em minha mente:

- Este blog ainda tem razão de existir?
- Alguém ainda lê o Catapop?
- Eu ainda quero mantê-lo no ar?

Como você deve ter perguntas mais importantes e interessantes para responder, vou considerar "sim" como a resposta a todas elas, seja verdade ou não. Na chamada "meia idade", há que não se perder tempo com chorumelas. 

Olá, 2017!


RETROSPECTIVA 2016 

George Michael, Sharon Jones, Leonard Cohen, Prince, David Bowie, Carrie Fisher, Alan Rickman, Steve Dillon, Darwyn Cooke: sentirei saudades. 💔

Fim da Retrospectiva.


Sobre as HQs, filmes, séries e álbuns que você desejou ver resenhados aqui durante o ano que passou: no que diz respeito às minhas finanças, 2016 foi um ano horrível. Às vezes, eu não podia consumir o que desejava. Às vezes, tinha que fazer escolhas difíceis. Não li ou assisti metade do que queria. Paciência. Tudo passa. Tomara que passe logo.

Pelo menos, não fiquei no zero. Vamos começar pelos quadrinhos:


MARVEL


Quem diria que eu, decenauta desde sempre, estaria tão marvete - e pior: gostando disso? O que eu sei é que a tal "Nova Marvel" (nome dado no Brasil ao "Marvel Now", o relaunch de 2013) tem umas coisas que nunca estiveram no meu cardápio de leitura e, agora, não sei mais viver sem elas. Recomendo, com especial ênfase:

- GAVIÃO ARQUEIRO, de Matt Fraction, David Aja e outros. O gibi mais divertido que você terá lido em muito, muito tempo. Ágil, bonito, moderno e inteligente, trata-se de uma pequena revolução. Foram três encadernados publicados até o momento.

- MISS MARVEL, de G. Willow Wilson, Adrian Alphona e outros. Novamente, diversão é a palavra de ordem. A muçulmana Kamala Khan é a nova Miss Marvel, uma adolescente inumana que tem problemas de qualquer adolescente humana. Respeito cultural e religioso são bônus muito bem-vindos nos dois volumes já publicados.

- THOR, de Jason Aaron, Esad Ribic e outros. Minha cisma com o Thor ruiu com a versão Ultimate do personagem e com algumas histórias isoladas, como o encadernado Loki. Nas três coletâneas já lançadas, Aaron (de Escalpo) entrega um novo e excelente épico de macheza viking. 

- OS VINGADORES e NOVOS VINGADORES, de Jonathan Hickman, Jerome Opeña, Steve Epting e outros. Os novos queridinhos do mundo super-heroico, em histórias incrivelmente bem escritas pelo principal arquiteto do Universo Marvel da atualidade. Hickman escreve ficção científica com classe e entende demais de dinâmica de equipe, mesmo quando ela tem uns 20 membros. Até aqui, são três livros de Os Vingadores e um de Novos Vingadores - e está tudo conectado. Leia todos.

Dois clássicos Marvel estão de volta à minha estante: A Última Caçada de Kraven, do Homem-Aranha; e Shamballa, do Doutor Estranho (cujo filme, se você não viu, PRECISA ver). Um terceiro chegou pela primeira vez, como presente do amigo Luwig: A Queda de Murdock, do Demolidor, um personagem que eu queria ter lido muito mais e não pude. Você já sabe o porquê, falei disso lá no começo.


DC 


A onda de republicações e novidades dos Novos 52 passou praticamente em brancas nuvens para mim. Teve um volume legalzinho da minissérie do Shazam! (Geoff Johns e Gary Frank), outro melhorzinho de Batman/Superman (Greg Pak, Jae Lee e Brett Booth), o extorsivo terceiro volume do Batman de Scott Snyder e Greg Capullo (desnecessariamente engordado com histórias do Batman & Robin, de Peter Tomasi e Patrick Gleason). A mais grata surpresa, porém, está nos dois ótimos encadernados da Mulher-Maravilha (Brian Azzarello e Cliff Chiang), surfando a onda de popularidade da personagem, em alta desde que Gal Gadot nos colocou a seus pés, em Batman vs Superman.

The Authority é DC, mas não é (veio da WildStorm, antigo selo de Jim Lee). Dane-se. É o gibi de super-herói blockbuster por excelência, onde Mark Millar estagiou pra fazer tudo aquilo que o consagrou em Os Supremos (mas gosto bem mais dos arcos de Warren Ellis). Saíram três coletâneas, até aqui.

Dos 60 volumes da coleção de graphic novels da DC pela editora Eaglemoss, parei em sete (e isso porque foi impossível desviar dos dois volumes de Silêncio, do Batman). Parabéns aos que conseguiram comprar a coleção e conservaram os dois rins. Manterei e/ou aguardarei edições da própria Panini, que são mais caprichadas e comparativamente mais baratas, além de não terem lombada pega-trouxa. Clássico por clássico, meu suado dinheiro foi muito mais bem gasto com o segundo volume de Gotham DPGC.


VERTIGO 


Tendo deixado passar toda a coleção do Monstro do Pântano de Alan Moore (sendo uma das razões o despautério de publicá-la em papel Pisa Brite), comprei os dois primeiros volumes escritos por Rick Veitch e, olha, que surpresa boa! Um gibi de gente grande, que envelheceu bem - longe de ser chato, mas que exige concentração. Já sei, de antemão, que o final é abrupto, polêmico e decepcionante (por conta das interferências da editora na ousadia de Veitch), mas vejo que o caminho até lá será enriquecedor.

Depois da consagrada fase de Grant Morrison, a Panini surpreendeu até os mais descrentes, prosseguindo a publicação de Homem-Animal, com um volume de Peter Milligan e três outros de Tom Veitch (e, honestamente, dá pra viver sem eles). Não para por aí: a editora já prometeu a fase de Jamie Delano para breve.

Dei uma chance a Astro City, de Kurt Busiek, em seu sétimo volume. Não me arrependi, mas não sei quando (ou se) poderei correr atrás dos outros. Melhor não fazer planos agora. O mesmo pode ser dito de DPF: Departamento de Polícia da Física, título novo, da gestão pós-Karen Berger, mas, por razões diferentes: o provável fracasso de vendas deve acabar a história do título por aqui nos dois volumes publicados. Uma pena, pois estava começando a pegar embalo.

Por outro lado, Tom Strong continuou bastante divertida e, a exemplo do Homem-Animal, está saindo a toque de caixa (foram apenas seis meses entre o primeiro e o quarto volume). Alan Moore também garantiu mais espaço na estante com o desejadíssimo (porém, caríssimo e, por isso mesmo, proteladíssimo) primeiro volume da Edição Definitiva de Promethea. Do lançamento até o conforto da minha prateleira, foi mais de um ano de espera.

Por último, mas nunca menos importante, houve dois encerramentos de peso, ao fim de 2016.

Fábulas 22 encerrou a jornada do segundo mais longevo título Vertigo (perdendo apenas para Hellblazer) com a maestria esperada de Bill Willingham, Mark Buckingham e convidados. Houve perdas e despedidas, mas houve alegria e esperança. Como nas melhores fábulas, enfim. Vai deixar saudades, mas, felizmente, basta pegar o primeiro volume e começar tudo de novo.

Já o muito aguardado Sandman: Prelúdio 3 fechou as portas do Sonhar no exato ponto onde elas foram abertas pela primeira vez. Pode não ter sido a melhor história do personagem, mas veio carregada de reflexão e emoção, traduzidas nas formas e cores do artista mais formidável que Neil Gaiman já teve como parceiro: J. H. Williams III, um colosso, com suas explosões de beleza visual e sua diagramação incomparável.


MENÇÕES HONROSAS

Mônica: Força e Bidu: Juntos mantiveram o padrão de qualidade Graphic MSP: digno, mas falhando em ser espetacular. Punho de Ferro voltou a sair em TPBs, com a dupla Fraction/Aja fazendo mais das suas. Já falei disso, mas não custa repetir: o especial Lois & Clark trouxe de volta o Superman que vale (o pré-Novos 52) e foi lindo.

MENÇÕES DESONROSAS

Pra não dizer que tudo estava sempre bom na Nova Marvel, os Guardiões da Galáxias, a cargo de Brian Bendis e Steven McNiven, é um embuste, uma nulidade, e eu não vou passar do primeiro volume. O pior do pior, porém, ficou com a não desejada, não esperada e não satisfatória Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, onde Frank Miller (auxiliado por um irreconhecível Brian Azzarello) prova que não sabe mais escrever (pelo menos, uma história que ande e que não seja uma coleção de pin-ups vergonhosas, deixadas a cargo de um Andy Kubert preocupado em emular o pior da arte do outrora mestre, que segue garranchando nos mini-gibis que acompanham cada capítulo).


E EM 2017?

Bom, agora em fevereiro começa o Renascimento (Rebirth) da DC Comics e eu vou querer conhecer, no mínimo, o elogiado Batman de Tom King. Tudo mais é incerto.


DÁ SÓ MAIS UMA DICA AÍ PRA GENTE, BATMAN!


Se eu tiver que recomendar um único gibi pra você, não pisco nem gaguejo para dizer: LAZARUS! Trata-se de um título da Image Comics - quem diria, atual celeiro das melhores ideias em quadrinhos adultos - escrito por Greg Rucka e desenhada por Michael Lark. Não digo mais nada, exceto isto: leia e, depois, volte para me agradecer. 😉

14/11/2016

Abra seu olho e veja


A tal "fórmula Marvel" é um assunto muito discutido internet afora. O mix de aventura e humor costuma agradar mais do que desagradar (ou os filmes não fariam centenas de milhões de dólares a cada lançamento), mas a tática dos Marvel Studios de nunca se aprofundar muito no desenvolvimento dos personagens ou tramas já começa a irritar a espectadores mais exigentes.

Doutor Estranho não é imune a críticas, uma vez que é um dos seus filmes com humor mais capenga. Algumas tiradas até funcionam, mas muitas são deslocadas ou, simplesmente, inconvenientes (como a reação de Wong, ao final da última batalha). Em que pesem as interrupções engraçadinhas, Dr. Estranho tem bom ritmo e acaba revelando-se um dos melhores filmes de origem da Marvel, além de expandir as fronteiras místicas de seu universo.

Se você nunca tinha ouvido falar do Dr. Estranho, não se sinta mal: o personagem nunca foi nenhum fenômeno de popularidade. Shamballa, de J. M. de Matteis e Dan Green, é a única HQ protagonizada por Stephen Strange que me recordo de ter lido, há mais de 20 anos (ainda assim, a verdade é que me lembro que li, mas não me lembro do que li). A propósito, o título está de volta às bancas, em relançamento pontual da Panini Comics.

A trama segue o que sempre me veio como a origem clássica do Mago: Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um cirurgião exímio e arrogante, para quem importa menos a salvação do paciente do que seu sucesso pessoal na execução. Egomaníaco de carteirinha, ele destrata a estranhos, colegas e a agora ex-namorada, a dra. Christine Palmer (Rachel McAdams). Ao sofrer um horrível acidente de carro, tem suas mãos (seus mais caros instrumentos de trabalho) esmagadas, além de qualquer recuperação ao alcance da medicina.

Sua busca por uma cura virtualmente impossível o leva, primeiramente, à falência; em seguida, ao Nepal, onde é acolhido como aprendiz da Anciã (Tilda Swinton), que o inicia nos segredos de coisas que Stephen, ao chegar, sequer acredita: energias e projeções espirituais, entidades cósmicas, universos alternativos...


Para incredulidade da Anciã e dos mestres Mordo (Chiwetel Ejiofor) e Wong (Benedict Wong), além da sua própria, Stephen revela altíssima afinidade com as artes místicas, tanta quanto já teve o antigo mestre Kaecilius (Mads Mikkelsen), que violou as leis naturais e aliou-se a forças malignas. Com ajuda de alguns discípulos, Kaecilius espera preparar a Terra para anexar-se à dimensão sombria. Cabe a Strange e seus aliados impedi-los.

Mesmo que Scott Derrickson não possa ser considerado um diretor com assinatura, ele não decepciona em entregar um blockbuster divertido e com visual psicodélico (as primeiras viagens astrais de Strange me remeteram à minha própria experiência com ayahusca, há quatro anos). Os efeitos visuais são incríveis, com a experiência de "dobras de realidade" de A Origem sendo elevada à enésima potência. Talvez seja prematuro cravar, mas me parece que já temos o vencedor do Oscar da categoria em 2017.

Salta aos olhos, também, o elenco acima da média, com óbvio destaque para Cumberbatch e Swinton. Os ataques de fúria de um e a serenidade extrema da outra encontraram o tom exato. A trajetória de desilusão do personagem de Ejiofor também ganha uma interpretação com boas nuances. Por outro lado, Mikkelsen me pareceu um tanto canastrão, e McAdams, apagada.

Até a primeira de suas duas cenas pós-créditos, Doutor Estranho funciona perfeitamente para quem nunca assistiu aos demais filmes do Universo Marvel (mas, fala sério, ainda existe alguém assim?). Nessa primeira cena, abre-se a porta para a participação de Strange em um filme de outro personagem. Na segunda, nasce o provável inimigo da segunda aventura do mago (ainda sem previsão de estreia, mas inevitável, diante do sucesso deste primeiro filme).

Cobrar mais "densidade" da Marvel pode até não fazer muito sentido, uma vez que seus filmes são produtos de escapismo assumidos, mas este filme, com suas breves discussões sobre o tempo e a mortalidade, dá um bom vislumbre de que o estúdio poderia - e deveria - arriscar-se um pouco mais. Algumas boas sacadas do roteiro são comprometidas pela incompreensível necessidade de encaixar piadas em momentos tensos. Esse negócio de dar ao público apenas o que ele (supostamente) quer pode prender os filmes numa espiral de previsibilidade que, com o tempo, talvez acabe afastando esse mesmo público, enjoado da mesmice. Doutor Estranho ainda conta pontos a favor da Marvel, mas talvez seja hora de alguém acender uma luz amarela.

24/09/2016

Velho amigo


Com minha decisão de só ler quadrinhos em encadernados, o período aqui conhecido como "DC e Você", logo após a Convergência, passou em brancas nuvens. A mão de comprar mix mensal chegou a tremer algumas vezes, principalmente porque o Batman de Scott Snyder parecia continuar bastante interessante, mas me segurei. 

Já no "superfront", desde 2011, houve dream teams a rodo (Grant Morrison e Rags Morales, Scott Snyder e Jim Lee, Geoff Johns e John Romita Jr., Clark e Diana no mesmo título), mas o fato é que nada disso me empolgou a ler Superman. Talvez devesse ter insistido um pouco mais, já que algumas histórias até parecem bacanas. Talvez eu compartilhe do sentimento de muitos outros leitores: essa coisa voando por aí, de armadura e gola vitoriana, simplesmente não é o Superman. 

Spoilers no parágrafo a seguir.

A DC, por mais que tenha tentado defender a iniciativa d'Os Novos 52, acabou apertando o "botão de pânico", que sempre manteve à mão. Com a oportunidade criada pela Convergência, trouxe de volta a versão pré-2011 do Superman, para secretamente coexistir com o do novo universo. Além disso, encomendou a morte da nova versão e, ao invés de simplesmente modificar tudo de volta ao que era antes, vem fazendo o antigo Superman reaprender seu lugar neste novo universo, testando seus laços com as versões mais jovens de seus velhos amigos. É uma ideia interessante - mas, da mesma forma que uma ideia ruim pode ser salva por uma boa execução, uma ideia aparentemente boa pode ser arruinada por mãos pouco hábeis. Veremos.

Fim dos spoilers.

Em um universo novo e estranho, o Clark Kent e a Lois Lane do universo pré-Novos 52 levam vidas secretas, sob nomes falsos, enquanto tentam criar o filho Jonathan* da melhor maneira que conseguem. Acontece que Lois não consegue deixar de ser uma grande repórter e Clark não consegue deixar de ser um herói. Enquanto ela investiga as atividades da Intergangue, ele realiza salvamentos mundo afora em segredo, acompanhando (nem sempre tão de longe) as façanhas dos demais integrantes da Liga da Justiça.

* Alguém me explica esse filho? Ele existiu oficialmente antes d'Os Novos 52? Eu não acompanhava Superman havia algum tempo.

Este encadernado compila os oito capítulos da minissérie Superman: Lois & Clark. Quem cuida dos roteiros é um grande entendedor do personagem: Dan Jurgens, o homem responsável pela já clássica A Morte do Superman, há mais de 20 anos. No lápis, outro veterano, que fez fama na Marvel: Lee Weeks.

O que eu digo a vocês? Foi como reencontrar um velho amigo! ESTE é o Superman que desejamos ver, o Superman que funciona! A patuscada intermidiática da DC, de querer empurrar pra cima de nós um Superman assemelhado àquele visto nos filmes do Zack Snyder, deslocado no planeta e emocionalmente distanciado dos humanos, deveria ser invertida com urgência: é no Superman de Lois & Clark, entre outros, que reside o espírito heroico que desejamos ver no cinema.

Mesmo enfrentando um inimigo poderosíssimo, o telepata Blanque (?), Superman não quebra pescoços, nem destrói cidades. Faz tudo conforme o Manual do Super-Herói Clássico, ainda achando tempo para ser bom marido e bom pai. O "superfilho", Jonathan, é um achado com potencial para ter seu próprio espaço na mitologia do personagem, a exemplo de Damien Wayne com o Batman - com a vantagem da simpatia natural de quem não foi criado por uma liga de assassinos.

Enfim, se você viu esse gibi nas bancas e ficou se perguntando se valia a pena, não perca mais tempo. Superman: Lois & Clark é tudo aquilo que nos tem sido negado há cinco anos: uma história do Superman para guardar e lembrar com carinho.

P.S.1: apesar da presença do Superman "falso", Batman/Superman: Dois Mundos, escrito por um Greg Pak inspirado, é um encadernado muito bacana, compilando as sete primeiras edições do título. O arco-título é desenhado por um Jae Lee absolutamente destruidor. A segunda história tem desenhos do restolho que atende por Brett Booth.

P.S.2: está acontecendo o advento chamado Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, mas eu me nego a sentar para escrever uma análise profunda de um gibi tão raso. Padece do mesmo problema que acometeu Grandes Astros: Batman & Robin: a história não anda - e, quando anda, não chega a lugar algum. Como já faz décadas que não sabemos o que é uma boa história nova de Frank Miller, não dá nem pra chamar de decepção.

Superman: Lois & Clark
Panini Comics - 196 páginas - R$ 25,90

31/07/2016

Um século de proezas


Meus sentimentos por Alan Moore são bastante ambíguos. 

Fora das páginas das HQs que escreve, costumo pensar nele como aquele velho ranzinza que, num bastante elogiável lapso de furiosa integridade, abriu mão dos direitos sobre algumas de suas obras mais aclamadas (mais notadamente, V de Vingança e Watchmen), mas, a exemplo de George Lucas em relação a Star Wars, sente-se no direito de dar pitacos sobre o que os novos donos devem ou não devem fazer com elas. Provavelmente, isso nem é culpa de Moore. Em busca de repercussão barata, a imprensa de entretenimento pop deve dar um sorriso maléfico a cada vez que pisa nos calos do velho eremita, reacendendo suas famosas picuinhas - especialmente, aquelas envolvendo a DC Comics.

Moore, entretanto, não é feito apenas de olhos pesados, barba e rancor. Recentemente, ele respondeu à carta de um leitor de apenas nove anos, fã de várias das obras que ele hoje renega, de maneira que revela bastante carinho, franqueza e respeito pela inteligência de um ser humano, mesmo em tão tenra idade. Ou seja, num pequeno intervalo entre trabalhos, Alan Moore criou uma peça de escrita pessoal tão memorável que, mesmo sem qualquer pretensão a tanto, deve adentrar a Eternidade. 

Em sua arte, porém, Moore é praticamente imbatível, sendo o mais próximo que existe de uma unanimidade entre os leitores de quadrinhos. Várias de suas obras gozam de reconhecimento geralmente dedicado a obras de literatura convencional, tamanho o esmero de sua narrativa e de seu trabalho de pesquisa, através do qual inunda as histórias com referências de diversos campos da arte e da ciência. Ler uma HQ de Alan Moore, mesmo o mais pop de seus títulos, é sempre uma experiência enriquecedora.

O emblema da Vertigo na capa de Tom Strong: A Origem é enganador. Moore escreveu as aventuras do centenário herói para o selo America's Best Comics (ABC), criado dentro da WildStorm especialmente para ele. Com a venda da WildStorm para a DC Comics (dona da Vertigo), Alan Moore encontrava-se, mais uma vez, respondendo à editora para a qual havia jurado nunca mais trabalhar. Desta vez, porém, a autonomia criativa de Moore foi assegurada e, na ABC, ele deu à luz alguns de seus "filhos" mais ilustres: A Liga Extraordinária, Promethea e este Tom Strong, no qual tem a companhia de artistas como Chris Sprouse, Gary Frank e Dave Gibbons, entre outros.

O personagem-título é uma espécie de amálgama do Superman com heróis pulp, como Tarzan e Doc Savage. São histórias onde se encontram aventuras em paisagens exóticas, ficção científica escapista, civilizações perdidas, nazistas e uma lista de referências talvez grande demais para uma resenha de HQ.

Tom Strong nasceu em Attabar Teru, uma ilha que não consta oficialmente dos mapas, no primeiro dia do século 20. Criado sob condições especiais, ele tem força, inteligência e longevidade sobre-humanas, além de grande simpatia e apelo popular: perto dos 100 anos de idade, Tom é o herói preferido das crianças de Millennium City, que leem sobre suas façanhas e se juntam em uma espécie de clubinho oficial, chamado Strongmen da América. Tom é um fenômeno pop e suas contribuições intelectuais transformaram a cidade em um oásis de progresso social e científico.

Como todo bom super-herói, Tom Strong tem seus oponentes ocasionais (máquinas sencientes, astecas extradimensionais, deuses cibernéticos) e um arqui-inimigo declarado: Paul Saveen, dado como morto quando começamos a acompanhar a saga. Tom também tem aliados: Pneuman, o primeiro ser mecânico inteligente, criado por seu pai; Rei Solomon, um gorila que teve seu cérebro aperfeiçoado pelo herói; por fim, sua esposa Dhalua e sua filha Tesla, moças com vocação para muita coisa, menos damas em perigo.

O gênio de Moore manifesta-se na comedida e bem-pensada atualização dos conceitos que povoavam as aventuras dos quadrinhos da primeira metade do século 20. Ao mesmo tempo em que modernizou algumas coisas para o paladar do leitor do século 21 que se aproximava, o escritor foi extremamente hábil em manter a aura aventuresca e escapista do período clássico. As ameaças que Tom Strong enfrenta costumam, em mãos menos talentosas, descambar para a paródia e canastrice. Isso não acontece aqui. Ainda que mantenham certa fanfarronice, os vilões revelam-se desafios à altura da virtual invencibilidade do herói. Na última história, por exemplo, o mais mundano dos desafios acaba sendo o maior de todos. Tom, porém, não poderia ser chamado de gênio se não tivesse soluções engenhosas para os apuros em que se mete.

Fico bastante feliz em ver a Panini em publicar esta série, neste formato e a preço acessível - quem já ouviu falar em pulp de luxo, afinal? Dá gosto de ver tão lindamente preenchidas lacunas como esta em meu currículo de leitor. Obviamente, existe um prazer muito grande na descoberta de um novo talento narrativo, e as opções na banca eram muitas neste sentido, mas, de vez em quando, nada melhor do que apostar no seguro. O nome Alan Moore é chancela de qualidade garantida.

Tom Strong: A Origem.
Edições originais: Tom Strong 1 a 7.
Panini/Vertigo - 212 páginas - R$ 27,90

21/06/2016

Palavra da salvação


Desafiar o sistema é, desde sempre, um dos motores da arte. Sempre que a liberdade se vê ameaçada, a Arte floresce com especial vigor, tanto em quantidade quanto em impacto. Não poderia ser diferente quando a Arte desafia o que é tido como sagrado - afinal, a religião ainda é, em diferentes partes do mundo, um rolo compressor que esmaga sonhos e sonhadores. O risco de derrubar conceitos sacrossantos de seu pedestal está no ato em si: é preciso muita sutileza para não resvalar no choque gratuito ou na ofensa pura e simples. A crítica não-fundamentada e que não oferece alternativa não passa, apelando a um termo muito em voga, de mimimi.

Daí, você ouve falar de uma série da Vertigo chamada Preacher. Nela, o pastor do título é possuído por uma entidade meio anjo, meio demônio e passa a ter o dom da Palavra Divina. Ele usa seu poder numa caçada ao próprio Deus, que está escondido na Terra, depois de abandonar o céu sem maiores explicações. Ao seu lado, uma namorada que já foi ladra e matadora profissional; e um vampiro junkie irlandês. Tudo muito profano, violento e escatológico, perigosamente próximo do choque gratuito e da ofensa pura e simples a serem desejavelmente evitados.


Não se engane, Preacher é, sim, chocante e ofensiva. É leitura que exige estômago forte e mente aberta. Estando avisado, uma vez que você desbrave os primeiros cinco ou seis capítulos, vai começar a perceber que existe uma grande história sendo contada pelo irlandês Garth Ennis, que vai muito além da mera desconstrução de dogmas. Subtraída a estética bagaceira, evidenciada em sangrenta glória na arte de Steve Dillon, resta muita crítica ao modo de vida norte-americano, denúncia de exploração da fé e de violência doméstica, uma história de amor e amizade das melhores e muito, mas muito mesmo, dedo na sua cara e na minha, por conta de nossas pequenas, médias e grandes hipocrisias. Preacher não faz concessões, nem prisioneiros.

A saga de Jesse Custer começa na pequena Annville, Texas, onde ele é um pastor brigão e beberrão, em plena crise com sua fé. Durante um sermão, seu corpo é tomado por uma entidade chamada Gênesis, filha do amor proibido entre um anjo e uma "demônia". A possessão lhe confere o dom da Palavra Divina: ao ouvir um comando de Jesse, ninguém é capaz de desobedecê-lo.


Você pode pensar que, com um poder assim, a missão que Jesse se autodelega (achar Deus e forçá-lo a voltar ao Céu e encarar suas responsabilidades) será uma moleza, mas, se assim fosse, não haveria história. Após reencontrar seu grande amor (Tulipa) e conhecer seu novo melhor amigo (o vampiro Cassidy), Jesse enfrenta bandidinhos e bandidões, inocentes úteis e inúteis, cultos mequetrefes e um megaculto que deseja causar o Armagedom para empossar um novo messias. A cada edição, somos apresentados a um novo degrau de baixeza humana e, mesmo assim, tudo parece muito crível e próximo: podia ser seu vizinho; podia ser seu parente; podia ser você.

Toda essa galeria de personagens espetaculares (Herr Starr, Santo dos Assassinos, Cara de Cu e tantos outros) e situações extraordinárias poderia não render tão bem, não fosse Garth Ennis um escritor exemplar, mascarando profundas discussões políticas, morais e existenciais com coloquialidade e palavrões. A sagacidade do texto de Ennis está em parecer tão simples e, ao mesmo tempo, revelar tanto refinamento, sob leitura mais atenta. Nem os mais longos balões ou recordatórios causam fadiga ao leitor, uma proeza a ser tomada como exemplo por qualquer um com ambições no campo das letras. Aliadas à arte de Dillon, as capas de Glenn Fabry (algumas, maravilhosamente repulsivas) ajudam a compor um imaginário visual histórico e inconfundível.


O melhor de tudo é que toda a odisseia de violência, absurdo, tristeza e alegria vivida pelos personagens tem serventia. Jesse, Tulipa e Cassidy chegam ao final do nono volume marcados, porém, transformados. Nos momentos finais do último capítulo, existem duas splash pages maravilhosas, uma linda e econômica síntese da única coisa que, ao fim de tudo, permanece inabalável - porque esta é, como dito antes, uma história de amor das melhores. Envolve 66 edições de sangue, tripas, balas e heresias, mas acaba com os maus punidos e os bons felizes. Não é assim que se constroem clássicos universais?

PREACHER
Garth Ennis e Steve Dillon
Panini Books / Vertigo Comics

Vol. 1: A Caminho do Texas
Vol. 2: Até o Fim do Mundo
Vol. 3: Orgulho Americano
Vol. 4: Histórias Antigas
Vol. 5: Rumo ao Sul
Vol. 6: Guerra ao Sol
Vol. 7: Salvação
Vol. 8: Às Portas do Inferno
Vol. 9: Álamo