24/09/2016

Velho amigo


Com minha decisão de só ler quadrinhos em encadernados, o período aqui conhecido como "DC e Você", logo após a Convergência, passou em brancas nuvens. A mão de comprar mix mensal chegou a tremer algumas vezes, principalmente porque o Batman de Scott Snyder parecia continuar bastante interessante, mas me segurei. 

Já no "superfront", desde 2011, houve dream teams a rodo (Grant Morrison e Rags Morales, Scott Snyder e Jim Lee, Geoff Johns e John Romita Jr., Clark e Diana no mesmo título), mas o fato é que nada disso me empolgou a ler Superman. Talvez devesse ter insistido um pouco mais, já que algumas histórias até parecem bacanas. Talvez eu compartilhe do sentimento de muitos outros leitores: essa coisa voando por aí, de armadura e gola vitoriana, simplesmente não é o Superman. 

Spoilers no parágrafo a seguir.

A DC, por mais que tenha tentado defender a iniciativa d'Os Novos 52, acabou apertando o "botão de pânico", que sempre manteve à mão. Com a oportunidade criada pela Convergência, trouxe de volta a versão pré-2011 do Superman, para secretamente coexistir com o do novo universo. Além disso, encomendou a morte da nova versão e, ao invés de simplesmente modificar tudo de volta ao que era antes, vem fazendo o antigo Superman reaprender seu lugar neste novo universo, testando seus laços com as versões mais jovens de seus velhos amigos. É uma ideia interessante - mas, da mesma forma que uma ideia ruim pode ser salva por uma boa execução, uma ideia aparentemente boa pode ser arruinada por mãos pouco hábeis. Veremos.

Fim dos spoilers.

Em um universo novo e estranho, o Clark Kent e a Lois Lane do universo pré-Novos 52 levam vidas secretas, sob nomes falsos, enquanto tentam criar o filho Jonathan* da melhor maneira que conseguem. Acontece que Lois não consegue deixar de ser uma grande repórter e Clark não consegue deixar de ser um herói. Enquanto ela investiga as atividades da Intergangue, ele realiza salvamentos mundo afora em segredo, acompanhando (nem sempre tão de longe) as façanhas dos demais integrantes da Liga da Justiça.

* Alguém me explica esse filho? Ele existiu oficialmente antes d'Os Novos 52? Eu não acompanhava Superman havia algum tempo.

Este encadernado compila os oito capítulos da minissérie Superman: Lois & Clark. Quem cuida dos roteiros é um grande entendedor do personagem: Dan Jurgens, o homem responsável pela já clássica A Morte do Superman, há mais de 20 anos. No lápis, outro veterano, que fez fama na Marvel: Lee Weeks.

O que eu digo a vocês? Foi como reencontrar um velho amigo! ESTE é o Superman que desejamos ver, o Superman que funciona! A patuscada intermidiática da DC, de querer empurrar pra cima de nós um Superman assemelhado àquele visto nos filmes do Zack Snyder, deslocado no planeta e emocionalmente distanciado dos humanos, deveria ser invertida com urgência: é no Superman de Lois & Clark, entre outros, que reside o espírito heroico que desejamos ver no cinema.

Mesmo enfrentando um inimigo poderosíssimo, o telepata Blanque (?), Superman não quebra pescoços, nem destrói cidades. Faz tudo conforme o Manual do Super-Herói Clássico, ainda achando tempo para ser bom marido e bom pai. O "superfilho", Jonathan, é um achado com potencial para ter seu próprio espaço na mitologia do personagem, a exemplo de Damien Wayne com o Batman - com a vantagem da simpatia natural de quem não foi criado por uma liga de assassinos.

Enfim, se você viu esse gibi nas bancas e ficou se perguntando se valia a pena, não perca mais tempo. Superman: Lois & Clark é tudo aquilo que nos tem sido negado há cinco anos: uma história do Superman para guardar e lembrar com carinho.

P.S.1: apesar da presença do Superman "falso", Batman/Superman: Dois Mundos, escrito por um Greg Pak inspirado, é um encadernado muito bacana, compilando as sete primeiras edições do título. O arco-título é desenhado por um Jae Lee absolutamente destruidor. A segunda história tem desenhos do restolho que atende por Brett Booth.

P.S.2: está acontecendo o advento chamado Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, mas eu me nego a sentar para escrever uma análise profunda de um gibi tão raso. Padece do mesmo problema que acometeu Grandes Astros: Batman & Robin: a história não anda - e, quando anda, não chega a lugar algum. Como já faz décadas que não sabemos o que é uma boa história nova de Frank Miller, não dá nem pra chamar de decepção.

Superman: Lois & Clark
Panini Comics - 196 páginas - R$ 25,90

4 comentários:

Alexandre Melo disse...

Tempo atrás tive conversa com o Batman... ops, quis dizer Marlo (foi mal, revelei tua identidade secreta(, sobre como achava estupidez que se a DC/Warner estava tão convicta que o Super está ultrapassado, taí o Grant Morrison que lançou não uma, mais DUAS reinvenções fantásticas, All-Star Superman e Superman: À Prova de Balas, e os panacas decidiram jogar no lixo que foi feito e estragar tudo.
Ainda não me animo em voltar ler títulos regulares mensais, tô queimando dinheiro apenas em encadernados (que inclusive, cada vez mais caros)m, e daí tenho que priorizar; mas a crítica positiva me dá mínimo de esperança de que ao menos a editora parou com as ideias estúpidas (ou quem sabe, esgotaram por um tempo, que até pra isso precisa dum tipo de criatividade).

Do Vale disse...

Um comentário sobre o filme: talvez se tivesse deixado o Super respirar e rolassem mais 2 filmes mostrando o desenvolvimento do personagem a coisa funcionasse e chegasse no ~nosso~ Super-Homem. Batman vs Superman foi um desserviço tanto pra ele quanto pro Batman, já que a imagem do Morcego do Nolan ainda é muito forte.

E como o Super deu sorte no pós-Crise, não? Um dos personagens que, com exceção de algumas cagadas ali pelo meio dos anos 90 (SUPER ELÉTRICO??), mais se manteve estável tanto em boas histórias quanto em boas equipes. Uma pena a mão do Snyder e dos executivos do Warner não acertaram com o Azulão.

Agora, uma questão interessante: em que ponto esse Super barbudo se encaixa é uma boa pergunta, já que no pré-Flashpoint não havia sinal de gravidez da Lois. E outra, o garoto já é grandinho. Acho que não vi alguém definindo isso por aí pela internet.

Abraço, meu querido!

Gerlande Diogo disse...

Um Superman tradicional? fodão? então vale a pena. Quanta a Cavaleiro Das Trevas 3, eu achava que era bom. ñ li mas ouvi elogios por aí.

Unknown disse...

O filho nasceu durante o periodo que a terra desse superman ficou confinada enrre as terras do vilão de Convergence. Aparentemente essa terra ficou cerca de 10-12 anos em confinamento, indicando que quando os Novos 52 aconteceram Lois estava grávida. Não li Convergence, mas acho essa de trazer somente o Superman daquele universo super frágil. Ele esqueceu dos outros? Onde eles estão? Morreram todos? Pra mim a DC só se complica com esses reboots, sinceramente...